17 de abr. de 2012

Pobre coco!



Pobre coco!


Segundo o Ayurveda, são 3 os sustentáculos (Upasthambas) da vida: o alimento (Ahara), o sono (Svapna) e o controle da atividade sexual (Brahmacharya) e a saúde (Swasthya) depende do uso adequado dessa tríade.

Estamos sempre expostos ao apelo da mídia sobre os "produtos milagrosos" . Hoje a Revista Veja publicou uma reportagem onde relata que o óleo de coco não serve para emagrecer. A matéria se intitula: Óleo de coco: para emagrecer, não passa de bobagem. Foi avaliado a quantidade de gordura saturada presente do óleo, e dito que não existe comprovação científica que o óleo de coco possa reduzir a gordura corporal. Ora, é claro que se o sujeito tomar óleo de coco e comer um hambúrguer com cheddar ele não vai perder peso. 

Mas então quais são as outras propriedades do coco?


É descrito nos Vedas como a árvore do paraíso (Kalpa Vriksha). Teria sido trazida à Terra pelo próprio Lord Vishnu para promover a saúde, a força, a longevidade, a energia, a tranquilidade e a paz. Muito utilizado em poojas nos mais diversos templos. Muito nutritivo, seu óleo é facilmente digerido sendo utilizado pelo organismo mais facilmente que outras gorduras, além de reduzir a acidez estomacal. Possui proteína de alta qualidade, magnésio, potássio, fósforo, sódio e enxofre. Possui várias vitaminas do complexo B e vitamina C; um copo de água de coco é suficiente para fornecer a quantidade necessária desta vitamina/por dia.


Terapeuticamente, a planta apresenta sabor doce e propriedades refrescantes, por isto está indicada para as pessoas com Pitta (fogo) aumentado no corpo. Na Índia, este óleo é utilizado nas queimaduras, eczemas e micoses pela sua propriedade anti-séptica.

É também usado pelas mulheres no Oriente, pois deixa os cabelos saudáveis e bonitos.

A massagem com óleo de coco refresca o calor corporal, pode usar usado no topo da cabeça em dias muitos quentes para evitar o calor nesta região, e ainda auxilia o corpo a absorver mais Prãna (energia) do ar. 

Mas o que vende??? Milagre, isso vende! E pior, por pressão da indústria algo tão sátvico como o óleo de coco pode se tornar um inimigo, assim como aconteceu com a nossa querida Kumari. O suco de aloe vera  foi retirado do mercado por suspeita de ser cancerígeno. Precisamos ter muito cuidado com o aquilo que lemos, com a fonte das informações e principalmente com as nossas atitudes.

O que precisa ser mudado é a forma como nos relacionamos com a comida. O corpo precisa de nutrição para formar os tecidos (dhatus) e produzir imunidade (ojas). Não podemos colocar no alimento o alivio de todas as nossas frustrações, ou na comodidade de se tomar uma simples cápsula, a forma ideal de perder peso. Para isso é preciso ter uma dieta equilibrada, e principalmente uma mente estável. 

A ignorância (avidya) é o grande causador das doenças, pois não buscamos conhecer e entender aquilo que estamos ingerindo. Para isso existe esta linda e milenar medicina, que vai a fundo, que transforma a maneira como nos relacionamos com o mundo, só assim seremos felizes, não sei se magros porque isso depende da nossa constituição, mas o que importa é ser saudável, inteligente, consciente e ético, isso sim, é a verdadeira beleza.

Como comer é um ato sagrado, apresento à oração a Annapurna, a Deusa das Colheitas.

annapurne sadapurne sankarapranavallabhe
jnanavairagyasiddhyartham bhiksam dehi ca parvati

Ó Parvati, consorte do Senhor Shiva, sempre plena,
preenche a todos com seu alimento, permita-me ter
sempre o alimento necessário e poder alcançar
conhecimento e desapego


PS: Esta foto foi tirada em Pondicherry pela minha grande amiga Larrisa Weisen, em uma de nossas aventuras pelo Sul da Índia. O coco é a forma de sustento de muitas famílias. Digamos que algo bem mais nobre do que apenas produzir o emagrecimento!

Namastê!



10 de mar. de 2012




O Egoísmo Espiritual

Já faz muito que reflito sobre sobre as questões e dúvidas que acompanham aqueles que optam por seguir o caminho do desenvolvimento espiritual. Tive a sorte, ou quem sabe, fui abençoada pela graça de ter começado muito cedo, na adolescência, mas embora cedo, esta fase da vida é bem complicada, pois temos que lidar com as diferenças e questionamentos das pessoas que nos amam, e temem que algo esteja errado.

Quando você é adolescente a diversão é ir a festas, encher a cara, arriscar-se nas mais diversas aventuras, e isso faz parte e na minha opinião com responsabilidade deve ser vivido, e foi o que eu fiz. Só que aos poucos fui me dando conta que eu não precisava de nenhum artificio externo para ser feliz, ou para ser mais extrovertida, pois sempre fui muito alegre a companheira dos meus amigos.

Parar de comer carne no Rio Grande do Sul foi uma afronta aos meus antepassados. Chegar com abobrinha, abacaxi e arroz integral nos churrascos sempre foi motivo de chacota, mas aos poucos as pessoas foram entendendo e respeitando este novo estilo de vida, não sair mais para as baladas, acordar cedo, e posteriormente o trabalho com o yoga só me ajudou, e fiz belas associações com pessoas que tinham o mesmo propósito de vida, o que foi muito recompensador. Isso é fundamental!

Mais de 15 anos se passaram e também muitas mudanças na vida, e hoje novamente me vejo na mesma situação. Com dificuldade de interagir com grupos de pessoas que não tem este mesmo propósito, não quero parecer uma pessoa chata, ou deslocada, mas juro por Deus que em certos ambientes me sinto um peixinho fora d´agua.

Em algumas leituras, e recebendo os conselhos de alguns mestres, todos falam de um certo "egoísmo", que o devoto, ou quem segue o caminho espiritual as vezes deve por em prática. Mas o que será este egoísmo? Sinto que muitas vezes eu prefiro ficar sozinha, praticar um bom sadhana, uma boa leitura, à me aventurar por festas e encontros sociais, será que é disso que eles estavam falando?

Numa outra oportunidade um mestre muito querido falou que a gente nunca encontraria um professor de Yoga em um bar, ou em um pagode. Lógico que ele estava exagerando no exemplo; mas o que ele queria dizer é que os yogues devem viver a vida de acordo com o que acreditam. Coerência, harmonia entre o falar e fazer. Não é fácil seguir a risca, afinal vivemos no ocidente e nem todos os nossos amigos e gostos respeitam 100% esta escolha; mas interpreto que devemos ao máximo procurar isso, mesmo que muitas vezes tenhamos que ser um pouco egoístas.

No Vedanta se estuda a realidade, a evolução e a libertação. Segundo uma recente entrevista que li com a professora Glória Arieira, existem dois estilos de vida em busca da libertação (de um sofrimento, de uma insatisfação constante): um estilo de vida do sannyasin (renunciante), em que a pessoa renuncia à sociedade - casa, filhos e trabalho- e vive isolada, estudando e meditando; e outro em que o Karma Yogi vive na sociedade, mas encaixa o estudo e o ensino também na sua vida com os filhos, o trabalho, etc.

Ela comenta que todos nós achamos que a renúncia é mais fácil e Arjuna na Gita também achava: porque você então só se dedica ao estudo. Mas acredito que tentando conciliar tudo isso, amadurecemos e também ensinamos um pouco aos que mais precisam. 

Não somos melhores nem piores dos que os outros, apenas optamos por desenvolver mais potencialidades. 

Todos são capazes, mas apenas alguns o fazem, pois como falei no inicio do texto, muita gente vai te questionar até entender o proposito da sua vida.

Um grande beijo e uma reverencia com muito amor a todos aqueles que escolheram o caminho da entrega e da devoção. Que todos possam entender e nos respeitar!

Que este egoísmo não nos afaste das pessoas, mas sim que ele afaste energias e situações que não nos acrescentam!

Mãos em prece

7 de mar. de 2012




A volta das voltas!

Sim, estou voltando a escrever no meu querido blog!

Talvez por uma enorme necessidade de compartilhar os momentos da minha vida, ou mesmo para na ação da escrita, organizar melhor todas as ideias dentro de minha cabeça. A volta da Índia, representou uma nova perspectiva no meu caminho. Confirmações e acertos de todas as escolhas que fiz, que me levaram ao universo do oriente e o acesso ao tesouro milenar desta cultura tão nobre.

O trabalho que já desenvolvia foi acrescentado de muito mais confiança, é como se todo aquele conhecimento que recebi em aulas, cursos e palestras, agora estava sendo metabolizado dentro de mim; foi um verdadeiro aprendizado interno.

Já fazem 5 meses desde então, e agora me vejo frente a um novo desafio. Um chamado para enfrentar uma outra expedição, mas desta vez, não vou longe, na verdade estou voltando.

Decidi retornar a viver em minha terra Natal, em Porto Alegre. Esta decisão implicou uma série de "desatar de nós" que eu mesma havia criado. Mas ao olhar internamente percebi que o  que havia antes deixado para trás, hoje estava me fazendo uma falta imensa. Mesmo trabalhando todas as questões filosóficas e me fortalecendo a ponto de estar totalmente feliz e plena em minha própria companhia, senti que a minha presença fazia muita diferença na vida de outras pessoas. E estas pessoas são hoje tudo que há de mais valoroso para mim: meus pais.

A matemática da vida é traiçoeira, começamos a pensar em anos... quantos anos ainda tenho para desfrutar a presença deles? Espero que ainda muitos, mas estando longe fica tudo mais preocupante.

Cuidar dos pais é uma ação dharmica, uma bem-aventurança. É como se estivéssemos de alguma forma agradecendo pelo nosso nascimento. Acredito que as pessoas que o fazem com amor são gratificadas com muito, mas muito mais amor. Escolhas fazem parte da nossa vida, o livre arbítrio é a nossa porcentagem de ousadia e coragem. Sempre ouvi de pessoas conhecidas que eu era alguém de coragem: Você saiu de casa muito cedo e foi morar numa barraca na beira da praia... ir sozinha explorar a Índia... você é corajosa mesmo! E agora me vejo à frente a um dos maiores desafios: sair de São Paulo, ficar longe do meu companheiro, amigos, e resgatar uma nova vida que há 4 anos deixei para trás.

Encaro uma jornada de reestruturação emocional. Me doar, de corpo e alma a esta nova etapa. Em 4 anos esta será minha quinta mudança de casa. Cada vez, estou reduzindo mais o número de coisas que carrego. 

Se vier uma sexta acho que uma sacolinha ecológica já vai dar conta do recado!!!

Prometo que vou manter todo mundo atualizado, e quem sabe, ajudar aqueles que esteja passando por uma fase parecida em suas vidas!

Segue um pensamento do querido Swami Dayanada:

"Uma vida com uma organização menos artificial pode colocar o homem em seu próprio colo mais vezes do que ele poderia desejar e, nesses momentos solitários, ele pode descobrir mais sobre si mesmo". 

Vamos?


10 de out. de 2011


Rotina Diária (Dinacharya)



Segundo o Ayurveda, a disciplina de uma rotina fortalece o nosso organismo e a nossa imunidade. Em algum momento da história, o ser humano se separou da natureza. Vivemos num ritmo antinatural. Nós nos tornamos cada vez mais afastados da natureza. Passamos a trata-la como objeto externo. Investimos num mundo totalmente artificial (comida, relacionamentos, alimentação...). E essa agenda artificial diminui nosso poder de ajustamento do stress. Ficamos perturbados por este estilo de vida.

E em função da vida estressante que levamos, é importante que seja mantida uma rotina saudável para  prevenir o aparecimento das doenças. Este cenário ainda é agravado em cidades onde predominam os climas secos e altas taxas de poluição no ar.

Para aqueles que se submeteram ao tratamento de Panchakarma (ações de desintoxicação) propostos pelo Ayurveda é de extrema importância que sejam adotadas algumas destas medidas preventivas. .

A prática do Dinacharya (rotina diária) pode se tornar um ritual muito prazeroso, desde que praticados com bom-senso e disciplina. Os efeitos são visíveis, tanto na beleza da pele e cabelos, quanto na percepção e eficácia dos órgãos dos sentidos. 

Acordar:

É indicado acordar antes do sol nascer, isso promove paz mental e é refrescante para o corpo.

Ao acordar movimente o corpo e com o coração cheio de amor e alegria agradeça por um novo dia que começa! A gratidão traz um sentimento profundo de bem-estar e paz.

Então é hora de realizar suas limpezas diárias:

Levante e tome um copo de água morna, pode pingar uma gota de limão para desaparecer a náusea que a água pode causar. Esta água tomada pela manhã estimula o peristaltismo intestinal. Tente tomar a água e se encaminhar para o banheiro, isso auxilia o funcionamento do intestino.

Lave o rosto, olhos, narinas e boca.

Olhos: Misture uma colher de chá de Triphala, para uma xícara de água e deixe ferver por 10 minutos, deixe esfriar, coe e lave os olhos com esta decocção. Isso auxilia na limpeza e diminui a irritação nos olhos. Após esta limpeza pingar duas gotas de Ghee com auxilio de um algodão nos olhos ( derreta o Ghee em banho maria e em temperatura ambiente molhe o algodão e pingue nos olhos). A visão se torna mais clara, limpa, sem irritações. Pode realizar esta técnica quando o ar estiver muito seco, os olhos irritados, inflamados,ou 2 vezes ao dia como parte de sua rotina diária.

Narinas: Pra limpeza das narinas é muito bom o Jala Neti , recipiente onde se coloca água filtrada com um pouco de sal, ou soro fisiológico morno.



Um recipiente especial, o lota, é necessário para esta prática. O lota pode ser feito de plástico, metal, louça ou qualquer outro material que não contamine a água. O importante é que a ponta do bico do lota adeque-se confortavelmente à cavidade da narina, de forma a não deixar que a água vaze. A água deve estar na mesma temperatura do corpo e deve ser adicionada uma quantidade de sal na proporção de uma colher de chá por litro de água. A adição de sal assegura que a pressão osmótica da água seja igual à dos líquidos corporais, dessa forma minimizando qualquer irritação à membrana da mucosa nasal. Se for sentida alguma dor durante a prática, pode ser em função da quantidade de sal administrada, por isso o soro fisiológico é uma ótima alternativa.
     
Após realizar o Jala Neti, deve-se pingar duas gotas de óleo de gergelim para lubrificar as narinas. Também pode com o Ghee morno molhar seu dedo mínimo nele e introduzir em uma narina, depois a outra realizando uma leve massagem, rodando o dedo para o sentido horário e anti-horário.

O ideal é realizar esta técnica 2 à 3 vezes por semana,se você tem rinite alérgica, no primeiro mês é aconselhável diariamente, depois volta para recomendação geral.

Ouvidos: Gotas de óleo nos ouvidos (Karnapurana):  Condições, tais como zumbido nos ouvidos, cera de ouvido em excesso, problemas de audição, são todos devido ao aumento do dosha Vata nos ouvidos.  

Colocar 5 gotas de óleo de gergelim morno em cada orelha pode ajudar esses transtornos.

Boca: Escovar os dentes para remover todas as impurezas da região, prevenindo doenças da boca e gengivas. Pós medicinais como a Triphala podem ser usados para esta higienização. A limpeza da língua é muito importante para prevenir o mau-hálito e trazer clareza para sua voz. Um instrumento de metal pode ser usado, não são aconselhados raspadores de plásticos, pois são difíceis de higienizar. Se você não possui um raspador de prata ou metal, como alternativa pode usar uma colher e raspar suavemente a língua com o lado côncavo. A saburra, ou seja, o produto final obtido com a raspagem é um indicativo de como vai a saúde e vitalidade dos nossos orgãos. 

É recomendável a realização de gargarejos com óleos medicinais. No Ayurveda esta técnica é chamada Kabala, isto é, mover o líquido medicinal dentro da boca. Pode ser usada água morna para remover o excesso de Kapha e outras impurezas. Ou óleo de gergelim para melhorar a força da voz e dos dentes, prevenindo as cáries e dores de dente, e também com mel para curar as aftas.

Banho: Assim chegou a hora do seu banho, o banho nos deixa limpo para um novo dia , restaura o equilíbrio e relaxa. A água fria refresca e limpa corpo e mente, aumentando o Agni. A água quente nunca deve ser aplicada na cabeça, sempre do pescoço para baixo, pois não é saudável para os olhos e cabelos.

Aplicação de óleo no corpo (auto-abhyanga): A utilização de óleo no corpo relaxa, pacifica vata, ou seja, estados de ansiedade, traz ânimo, longevidade, nutre e dá brilho a pele. Aqueça o óleo em banho maria , e passe por todo o corpo, na direção dos pelos, céfalo-podal.

Todo ser humano precisa receber óleo no corpo. O óleo é o melhor medicamento para pacificar Vata. O equilíbrio de Vata é fundamental para se ter saúde. Vata é o dosha que se desequilibra com mais facilidade.

Na medida em que o tempo passa, iremos aumentando Vata no corpo.

Além disso os benefícios obtidos são:

Flexibilidade às articulações;
Torna firme a musculatura;
Os movimentos do corpo ficam livres; 
Melhora a circulação do corpo;
Melhora a eliminação dos Malas (excretas);
Produz relaxamento. 

Deixe agir (penetrar) o óleo por alguns minutos, este é um bom momento para a sua prática diária de yoga, com o óleo ainda no corpo! A prática de ásanas e pranayamas são a chave para um corpo e mente saudáveis.

Se sentir necessidade, tomar uma ducha rápida somente para tirar o excesso de óleo do corpo.

Óleos mais indicados:

Para Vata: Óleo de gergelim quente
Para Pita: Girassol ou óleo de coco mornos
Para Kapha: Girassol ou mostarda quentes

Satvritha (Ética para a vida): Saúde e felicidade dependem de uma atitude também mental. Realize todos os seus deveres de acordo com seu dharma (consciência de justiça) é uma parte muito importante da sua rotina diária. Porque felicidade é impossível sem o Dharma. Compaixão, caridade e educação trazem paz e calma para a mente. "Ahimsa" – não prejudicar outros seres humanos fisicamente ou mentalmente é considerado a parte mais importante do Dharma.

Segundo Dr.Vasant Lad: "Ayurveda is a Sansckrit word that means "the science of life and longevity." According to this science, every individual is both a creation of cosmic energies and a unique phenomenon, a unique personality. Ayurveda is the art of daily living in harmony with the laws of nature."

Sábias palavras Guruji!




8 de set. de 2011



A experiência de Vrndavana

No último mês de aulas eu havia organizado uma semana de férias; dia 15 de Agosto é o dia da Independência da Índia e é o maior feriado que eles tem no ano. Era uma oportunidade para explorar um novo lugar.

Pensei em diversas opções, Nepal, Butão, Varanasi, Khajuaro, enfim, comecei a listar todos os lugares que gostaria de conhecer e que seria possível financeiramente ir visitar. E exatamente por isso, tive que riscar da lista a opção Nepal/Butão porque sairia muito caro.

Fiquei então com a ideia de ir próximo à Varanasi e de trem ir conhecendo cidades próximas, incluindo Mathura e Vrndavana. Seriam mais ou menos 2 dias para cada cidade. Já havia comprado as passagens aéreas para Delhi e reservado os tickets de trem.

No meio do caminho, aproximadamente duas semanas antes da minha partida, eu conheci aquela família que citei no texto sobre Bhakti Yoga, e a Mataji me desaconselhou fazer esta viagem sozinha, principalmente à Vrndavana, e mais ainda porque havia escolhido fazer esta viagem exatamente no dia da comemoração do aniversário de Krishna, isto é, a cidade estaria uma loucura!!! 

Ela me perguntou se seria possível eu antecipar minha viagem pois eles estariam por lá um pouco antes do feriado, apresentando a cidade ao monge que estava morando com a gente; que na companhia dela seria mais seguro explorar esta região. 

Correria então para mudar tudo, fazer novas reservas, acertar com o diretor do curso se seria possível eu recuperar as aulas, etc. Mas deu tudo certo!

Aproveitei e mandei um email para um contato que um aluno meu de Yoga muito querido havia me passado, de um brasileiro que morava há mais de 13 anos em Vrndavana. Ele havia visitado a cidade e ficou hospedado no templo; super boa indicação! Mandei o email e prontamente fui atendida e convidada a permanecer no templo durante a minha estadia em Vrndavana! Jaya! Krishna já estava fazendo seus arranjos para me proporcionar uma experiência incrível!

Vrndavana fica a aproximadamente 150km de Nova Delhi, a lójistica era voar até lá e depois pegar um trem para Mathura (cidade onde Krishna nasceu) e depois um rickshaw para Vrndavana. Beleza, tudo acertado.

Mas quem conhece bem a Índia sabe que nem tudo são flores, e um local especial como este não seria de tão fácil acesso. Quando cheguei no aerorporto tive a noticia que meu voo havia sido cancelado, e a conexão de Mumbai para Delhi passaria da 00:45 para as 02:30am, isto é, perderia meu trem para Mathura. Bom, embarquei no avião e entreguei a Deus o meu destino, de alguma maneira eu chegaria lá!

Ao pousar em Delhi fui me informar sobre como chegar à Mathura, e me deram duas opção, ônibus ou táxi. O táxi sairia bem mais caro, então o jeito mesmo era tentar encontrar o lugar para pegar este ônibus. Fui parar numa rodoviária a mais ou menos 50km do aeroporto, onde ninguém, juro por Deus nosso Senhor, falava inglês! Era uma sujeira inacreditável, e para ajudar ainda mais, chovia "cântaros" ou seja: MUITO! Ludibriada ou não peguei outro rickshaw; o motorista entendeu para onde eu queria ir, e me falou que eu deveria ir para outra rodoviária, como eu não tinha noção da distância, e na Índia quando eles levam estrangeiros nos tuc-tuc normalmente eles cobram preço fechado, paguei mais ou menos R$15,00, o que é bastante coisa! Mas eu precisava tentar!

Encontramos o ônibus, eu precisei olhar umas duas vezes para entender que aquilo era realmente um ônibus. Sentei no que parecia ser um banco, e com meus quase 1.80m de altura, fiquei com os joelhos colados no peito! E pela distância eu imaginei que aquela tortura duraria no mínimo umas 5horas.

Estava certa, mas para resumir e ir para a parte boa, em umas 6 horas já estava em Vrndavana, no Templo sentanda ao lado do Maharaj, ou Márcio Yaat, o coordenador deste local tão sagrado e especial. Tomei um belo banho para tirar as penas de galinha que estavam grudadas na roupa, vesti meu Sari e mergulhei de peito aberto nesta nova experiência!

Foram 6 dias de muitas conversas, momentos inesquecíveis. Vrndavana realmente não é um lugar para você explorar sozinha (na minha opinião), é um lugar intenso; muito intenso. Maharaj dizia que tudo que é feito ou desejado lá se multiplica em mil! Se você medita, sua meditação atingirá um grau muito mais elevado, se você vocaliza mantras, seus mantras irão refletir muito mais intensamente dentro de você! E é a mais pura verdadade, estava realmente num lugar sagrado e pude sentir uma vibração muito diferente.

São mais de 500 templos espalhados pela cidade, e alguns devotos realizam procissões ao redor da cidade descalços, honrando e respeitando o lugar como se a cidade toda fosse um grande templo. E diferentemente de como eu havia imaginado, os moradores de lá são devotos de Radha, não de Krishna. Por onde você passa vai ouvir alguém gritando: Radhe!Radhe! Hari Bol!!! É incrível!

Conheci templos muito bonitos, e extremamente especiais. Participei de uma cerimonia sagrada (Arati) na beira do Rio Yamuna, foi algo muito emocionante que eu já mais vou esquecer!

Fiz um passei de Bike com o Maharaj e ele me mostrou vilarejos e outros locais menos turísticos, onde pude ver realmente como é a vida de quem mora numa cidade sagrada. O tempo todo cruzamos com devotos das mais diferentes linhas, milhares deles, fazendo suas procisões e adorando seus Deuses. Durante o Kumbha Mela que é um dos maiores festivais religiosos do mundo, os devotos passam por Vrndavana e vão ao encontro do local onde o Ganges, Sarawasti e o Rio Yamuna se encontram. Quem sabe daqui 4 anos não posso estar lá!!!

Aprendi muito, ouvi belas histórias sobre o Bhavagad Gitta, um repertório de passagens lindas, que tanto tem a nos ensinar. Aprendi sobre politica, ética, costumes, cultura e religião através da visão de um devoto que dedicou a sua vida para seguir com trabalho do seu mestre, Srila Bhagavata Bhusana Guru; um grande estudioso e um professor por natureza! Maharaj, muito obrigado por me proporcionar esta viagem incrível, espero que em breve você escreva todas as suas histórias e que possamos divulgar para o mundo todo as experiências mágicas que você viveu! Obrigado por esta oportunidade de me fazer viajar para dentro de mim mesma!

Eu recomendo a quem quiser ter uma experiência totalmente diferente visitar este lugar, mesmo com todo o lixo que vi, toda a sujeira espalhada pela cidade (quem foi pra Agra pode ter uma idéia mais ou menos de como são estes locais) coloque Vrndavana na sua lista de lugares para conhecer antes de morrer, ou de desencarnar, deixar o corpo físico, trocar a dimensão...

Radhe! Radhe!

Seguem algumas fotos deste lugar tão especial!




Pelas ruas...



Vacas e macacos...




Lindo!



Entrada do mercado.




Cerimônia no Rio Yamuna, céu cor de rosa e meu coração transbordando de alegria!




Meu grande amigo, Maharaj! Despedida do Templo, com a proteção do Guru Srila Bhagavata Bhusana; para me acompanhar no retorno à Coimbatore!


19 de ago. de 2011


O quão poderoso é nosso poder de transformação?

O DNA que é formado a partir das células dos nossos pais, desenha a nossa forma mais primitiva.

Durante o desenvolvimento do feto, toda a carga genética vai sendo impressa nas características físicas e também emocionais da criança. Ao nascer temos a ideia de que a vida está apenas se iniciando, tudo é novo!

Mas hoje já sabemos que não é bem assim. Além das informações genéticas trazidas pelos cromossomos dos progenitores, também somos formados pela influência de nossos ancestrais e de vidas anteriores.

O Ayurveda diz que somos o resultado de todos os hábitos praticados por gerações e gerações. Nossa saúde e constituição é o produto de tudo aquilo que foi feito, digerido e vivenciado por varias vidas anteriores. Ao olhar o corpo de alguém, você esta olhando para o passado! Ok, você pode pensar: “Nossa! Isso é injusto; afinal eu não tenho culpa se meus familiares tiveram maus hábitos alimentares durante a passagem deles aqui na terra! Ou mesmo se em vidas anteriores eu fui uma pessoa má, porque eu tenho que pagar isso agora?

Não quero entrar na discussão espírita, ou religiosa, isso já é muito falado e também devidamente discutido por quem realmente entende do assunto. A minha ideia é apresentar o que podemos fazer para nos libertar desta roda de encarnações (Samsara em sânscrito) e não sofrer tanto com todas as influências que estão acima da nossa vontade.

O primeiro passo é procurar um astrólogo (o Ayurveda esta associado com a astrologia védica) que vai apresentar todo o panorama do céu no dia do seu nascimento. Além disso você terá como visualizar todas as influências que regem seus signos e quais os planetas exercem mais força ou tiram a sua força. Com isso já dá para ter uma ideia do nosso Karma, que é o assunto principal deste artigo.

Trazendo novamente a referencia do Ayurveda, o primeiro sloka (versos) do importante compêndio Astanga Hrdayam, diz o seguinte: Obeisances to Apoorna Vaidya (saudações ao raro, único, físico); who has destroyed, without any residue, all the diseases like raga (aquele que destruiu, sem resíduos, todas as doenças como raga_paixão ou desejo). Na sequência ele apresenta mais alguns significados ou componentes de raga como: a ganância, raiva, arrogância, inveja, medo e outras emoções ruins.

E descreve também dois tipo de Karma: Punya e Papa, o bom e o mal Karma respectivamente.

O bom Karma inclui o Dharma (virtudes) que são as ações positivas e os bons pensamentos. Estando mais perto do bom Dharma, podemos também mudar ou atenuar a força do nosso Karma. É por isso que o tratamento para a cura de uma doença não deve levar em consideração apenas a parte física do indiviuo, ou focar apenas nos sintomas externos da doença; e sim, qual o seu Karma e como ele esta agindo; qual o seu comportamento e padrão mental (gunas). Esta é a grande diferença entre o Ayurveda e a medicina tradicional.

Mais um motivo para se aproximar de técnicas como o Yoga e a meditação; que vão lhe auxiliar no processo do auto-conhecimento. As técnicas são como guias, que conduzem a uma jornada interna. Nos ajudam a perceber os padrões viciados do nosso comportamento. Como eu sempre digo, você pode fazer um belo tratamento ayurvédico, ficar bem “limpinho” mas se você não mantiver uma prática espiritual adequada e disciplinada, tudo que está na raiz do seu Karma uma hora ou outra virá a tona, e você vai esquecer de tudo que aprendeu e voltar aos velhos hábitos, tanto físicos quanto mentais!

Este grande físico citado no sloka, é Dhanwantarie, aquele que tem o poder de remover os maus Karmas e purificar o corpo. O veiculo para esta purificação, ou seja, o caminho para entrar em conexão com Ele e remover esta tendência, é através dos mantras! A vocalização regular dos mantras nos aproxima do divino. Cria um ambiente interno de paz e de silêncio, todo mundo pode se beneficiar: não tem preço, não precisa pegar o carro nem pagar estacionamento! De tão simples a gente chega até a duvidar se ele é realmente efetivo! Mas só quem o pratica pode ter ideia do poder de transformação dos mantras.

Se você não esta habituado ao sânscrito ou não conhece nenhum mantra, simplismente vocalize o mantra OM. Sente-se numa posição confortável e mentalmente repita o mantra, uma vez na inspiração e outra na exalação. Procure estabelecer uma prática diária, vocalizando sempre o mesmo número de vezes sem interrupções, de manhã e a noite. Num segundo momento, com a ajuda de um profissional da astrologia, é possível fazer os mantras de cada planeta, ajudando a atenuar ou fortalecendo os efeitos dos mesmos. Aos terapeutas de Ayurveda ou mesmo quem está se submentendo a qualquer tratamento, o mais indicado é fazer o mantra à Lord Dhanwantarie.

Mangalam! Rezar para Deus, pedir proteção contra todos os bloqueios!

Então, que possamos expandir nossa consciência e ver o quão importante são estas práticas. Procure estar sempre próximo de pessoas boas, nutrir-se com alimentos frescos, não cultivar a inveja, a arrogância, o medo e a raiva. Afastando-se dos pensamentos negativos, drogas, e ambientes com baixa vibração.

Cito uma frase que recentemente ouvi e foi muito esclarecedora:
“Se você não acredita em Deus, a única certeza que você  tem é a da morte. A escolha é sua, se quiser ficar perto de Deus ou mais perto da morte!”

Namaskar


4 de ago. de 2011

A mulher na Índia, é feliz?

Dando sequência as minhas análises iniciadas pelo facebook, sobre as profundas e interessantes conversas sobre sexualidade com minha professora de sânscrito, achei bacana escrever e colocar em pauta um pouco mais sobre este "choque cultural" que estou vivenciando por aqui! Agradeço ao meu amigo João Luís pela sugestão, e todos aqueles que me acompanham por esta vida tão maluca!

Quando falamos em cultura e hábitos de vida, já temos uma ideia pré-estabelecida de como os povos se relacionam com os mais diferentes aspectos da vida. Quando falamos de Oriente, e no caso Índia, a imagem que nos vem a cabeça é de uma sociedade extremamente reguladora, onde a mulher é vista apenas como um ser a serviço do homem e da casa. Sem direitos, mas cheia de deveres. Fica realmente difícil de imaginar se estas mulheres são realmente felizes.

A elas não é dado o direito de escolher o marido, no caso dos casamentos arranjados (que ainda são em maioria por aqui, principalmente no Sul que é uma região mais conservadora) quem escolhe o pretendente é a família, de acordo com os valores e qualidades que eles acham importante que o futuro noivo deva ter.

E o casamento é visto por muitas mulheres como uma meta a ser seguida. Tenho lido diversas publicações regionais; revistas que cumprem o mesmo papel da nossa conhecida Revista Nova, que fala mais abertamente sobre sexualidade e assuntos do universo feminino, e estas revistas valorizam muito a união matrimonial. Existem seções dedicas as leitores onde histórias de amor, de heroísmo dos seus homens são contadas as outras mulheres, que sonham e almejam pelo grande dia do casamento.

Elas estudam, são preparadas pela família para se tornarem mulheres inteligentes e interessantes. Ai, chega um dado momento em que elas desistem da carreira, muitas vezes extremamente bem sucedidas, e partem para este novo desafio em suas vidas. Felizmente hoje, existem algumas famílias que aceitam os "Love Marriages" onde a menina tem um namorado e futuramente se casa com ele; ou mesmo tem a opção de adiarem seus planos para dedicar mais tempo as suas carreiras. Mas ainda são em minoria por aqui!

No geral, a partir do momento em que o casamento acontece, uma nova etapa se inicia. A construção da família. Esta etapa é também vista de uma maneira bem diferente do que estamos acostumados a ver. Hoje em dia, a mulher busca se equiparar com os homens, tendo as mesmas oportunidades profissionais, os mesmos salários, enfim. Aqui, a base da casa é homem, ele é a coluna estrutural da famila. O responsável por manter a honra e o nome da familia perante a sociedade.

Fiquei muito impressionada, quando dias atrás estava lendo no jornal uma história sobre uma família aqui de Coimbatore, que havia desaparecido. Dias depois eles encontram na casa um bilhete escrito pelo pai, onde ele explicava que estava com muita vergonha pois ele havia feito muitas dividas e não tinha dinheiro para pagar. Pessoas estavam o cobrando pelo pagamento! Por não conseguir aguentar mais esta situação, ele fugiu com toda a familia para um outro local onde ele iria tirar a sua vida, da esposa e dos dois filhos pequenos, pois com tanta desonra era impossível continuar vivendo. Como ele iria encarar seus amigos e seus familiares?

Isso é algo comum por aqui, segundo meus professores, a cada ano mais de 30 casos como este são noticiados!

Mas, fazendo um link com o tema principal do texto, será que a mulher aqui é feliz?

Eu diria que sim, pois tudo é baseado na familia! E não tem amor maior no mundo do que o amor que sentimos pelos filhos e pelo homem que passa a vida toda procurando trazer o oferecer o que há de melhor no mundo para a sua esposa. A mulher, diferentemente do que pensamos, é vista como uma Deusa, a responsável por manter a energia do lar. E isso não é menosprezar ninguém não! Aqui, elas dizem: primeiro o casamento, e depois o amor! Ou seja, o amor vai sendo construído aos poucos, a cada dia! As familias são extremamente unidas! As mães são muito, mas muito carinhosas e afetivas com seus filhos (eles amam bebês). E para tudo existe um ritual, uma cerimonia; na minha opinião estes rituais são o que sacralizam a cultura. Quando fazemos um ritual, algo esta sendo marcado! E isso é eterno.

Outro ponto interessante é sobre o divórcio. Aqui a mulher tem total direito de se divorciar se ela comprovar que o marido a trata mal, com violência ou é adepto do uso de álcool. Sim existem delegacias especializadas nos direitos da mulher! Um dia, fui visitar a casa de familia e uma grande confusão estava acontecendo, era gente gritando pra todo lado! Uma mulher, que morava na cercania, havia se casado a alguns dias, e o marido resolveu sair e encher a cara. Resultado, no dia seguinte ela foi à polícia e havia pedido o divórcio! Desonra, sim, mas para o pudim de cachaça que trocou a mulher pela boêmia!

Continuando: O sexo também não é o mais importante, muitas vezes ele é visto apenas como um meio para a reprodução, para ter filhos. Perdas e ganhos não é mesmo? Afinal, se não passássemos tanto tempo da nossa vida preocupados com o prazer sensorial, com os prazeres da carne, sobraria muito mais tempo para outras coisas não é? A união entre homem e mulher é algo além do carnal, é união de almas. A gente não vê por aqui casais de mãos dadas, demonstrando afeto em lugares públicos; isso é algo reservado somente para os momentos de intimidade, e a gente vê casais tão afetivos, que adoram valorizar o sexo e a grande química que rola, mas no fundo eles não tem a mínima intimidade! Não são capazes de conversar e se entender!

Então amigos, sem sombra de dúvida eu digo que a mulher é feliz aqui sim! De uma maneira diferente, não aos nossos olhos ocidentais! Afinal, em que religião existe, tantas Deusas quanto no hinduísmo? Tantas mulheres adoradas e abençoadas.

Pobre Maria Madalena, tão apedrejada e criticada pelos costumes cristãos...

É isso aí, temos muito, mas muito o que aprender com os indianos....Namaste! :)