8 de set. de 2011



A experiência de Vrndavana

No último mês de aulas eu havia organizado uma semana de férias; dia 15 de Agosto é o dia da Independência da Índia e é o maior feriado que eles tem no ano. Era uma oportunidade para explorar um novo lugar.

Pensei em diversas opções, Nepal, Butão, Varanasi, Khajuaro, enfim, comecei a listar todos os lugares que gostaria de conhecer e que seria possível financeiramente ir visitar. E exatamente por isso, tive que riscar da lista a opção Nepal/Butão porque sairia muito caro.

Fiquei então com a ideia de ir próximo à Varanasi e de trem ir conhecendo cidades próximas, incluindo Mathura e Vrndavana. Seriam mais ou menos 2 dias para cada cidade. Já havia comprado as passagens aéreas para Delhi e reservado os tickets de trem.

No meio do caminho, aproximadamente duas semanas antes da minha partida, eu conheci aquela família que citei no texto sobre Bhakti Yoga, e a Mataji me desaconselhou fazer esta viagem sozinha, principalmente à Vrndavana, e mais ainda porque havia escolhido fazer esta viagem exatamente no dia da comemoração do aniversário de Krishna, isto é, a cidade estaria uma loucura!!! 

Ela me perguntou se seria possível eu antecipar minha viagem pois eles estariam por lá um pouco antes do feriado, apresentando a cidade ao monge que estava morando com a gente; que na companhia dela seria mais seguro explorar esta região. 

Correria então para mudar tudo, fazer novas reservas, acertar com o diretor do curso se seria possível eu recuperar as aulas, etc. Mas deu tudo certo!

Aproveitei e mandei um email para um contato que um aluno meu de Yoga muito querido havia me passado, de um brasileiro que morava há mais de 13 anos em Vrndavana. Ele havia visitado a cidade e ficou hospedado no templo; super boa indicação! Mandei o email e prontamente fui atendida e convidada a permanecer no templo durante a minha estadia em Vrndavana! Jaya! Krishna já estava fazendo seus arranjos para me proporcionar uma experiência incrível!

Vrndavana fica a aproximadamente 150km de Nova Delhi, a lójistica era voar até lá e depois pegar um trem para Mathura (cidade onde Krishna nasceu) e depois um rickshaw para Vrndavana. Beleza, tudo acertado.

Mas quem conhece bem a Índia sabe que nem tudo são flores, e um local especial como este não seria de tão fácil acesso. Quando cheguei no aerorporto tive a noticia que meu voo havia sido cancelado, e a conexão de Mumbai para Delhi passaria da 00:45 para as 02:30am, isto é, perderia meu trem para Mathura. Bom, embarquei no avião e entreguei a Deus o meu destino, de alguma maneira eu chegaria lá!

Ao pousar em Delhi fui me informar sobre como chegar à Mathura, e me deram duas opção, ônibus ou táxi. O táxi sairia bem mais caro, então o jeito mesmo era tentar encontrar o lugar para pegar este ônibus. Fui parar numa rodoviária a mais ou menos 50km do aeroporto, onde ninguém, juro por Deus nosso Senhor, falava inglês! Era uma sujeira inacreditável, e para ajudar ainda mais, chovia "cântaros" ou seja: MUITO! Ludibriada ou não peguei outro rickshaw; o motorista entendeu para onde eu queria ir, e me falou que eu deveria ir para outra rodoviária, como eu não tinha noção da distância, e na Índia quando eles levam estrangeiros nos tuc-tuc normalmente eles cobram preço fechado, paguei mais ou menos R$15,00, o que é bastante coisa! Mas eu precisava tentar!

Encontramos o ônibus, eu precisei olhar umas duas vezes para entender que aquilo era realmente um ônibus. Sentei no que parecia ser um banco, e com meus quase 1.80m de altura, fiquei com os joelhos colados no peito! E pela distância eu imaginei que aquela tortura duraria no mínimo umas 5horas.

Estava certa, mas para resumir e ir para a parte boa, em umas 6 horas já estava em Vrndavana, no Templo sentanda ao lado do Maharaj, ou Márcio Yaat, o coordenador deste local tão sagrado e especial. Tomei um belo banho para tirar as penas de galinha que estavam grudadas na roupa, vesti meu Sari e mergulhei de peito aberto nesta nova experiência!

Foram 6 dias de muitas conversas, momentos inesquecíveis. Vrndavana realmente não é um lugar para você explorar sozinha (na minha opinião), é um lugar intenso; muito intenso. Maharaj dizia que tudo que é feito ou desejado lá se multiplica em mil! Se você medita, sua meditação atingirá um grau muito mais elevado, se você vocaliza mantras, seus mantras irão refletir muito mais intensamente dentro de você! E é a mais pura verdadade, estava realmente num lugar sagrado e pude sentir uma vibração muito diferente.

São mais de 500 templos espalhados pela cidade, e alguns devotos realizam procissões ao redor da cidade descalços, honrando e respeitando o lugar como se a cidade toda fosse um grande templo. E diferentemente de como eu havia imaginado, os moradores de lá são devotos de Radha, não de Krishna. Por onde você passa vai ouvir alguém gritando: Radhe!Radhe! Hari Bol!!! É incrível!

Conheci templos muito bonitos, e extremamente especiais. Participei de uma cerimonia sagrada (Arati) na beira do Rio Yamuna, foi algo muito emocionante que eu já mais vou esquecer!

Fiz um passei de Bike com o Maharaj e ele me mostrou vilarejos e outros locais menos turísticos, onde pude ver realmente como é a vida de quem mora numa cidade sagrada. O tempo todo cruzamos com devotos das mais diferentes linhas, milhares deles, fazendo suas procisões e adorando seus Deuses. Durante o Kumbha Mela que é um dos maiores festivais religiosos do mundo, os devotos passam por Vrndavana e vão ao encontro do local onde o Ganges, Sarawasti e o Rio Yamuna se encontram. Quem sabe daqui 4 anos não posso estar lá!!!

Aprendi muito, ouvi belas histórias sobre o Bhavagad Gitta, um repertório de passagens lindas, que tanto tem a nos ensinar. Aprendi sobre politica, ética, costumes, cultura e religião através da visão de um devoto que dedicou a sua vida para seguir com trabalho do seu mestre, Srila Bhagavata Bhusana Guru; um grande estudioso e um professor por natureza! Maharaj, muito obrigado por me proporcionar esta viagem incrível, espero que em breve você escreva todas as suas histórias e que possamos divulgar para o mundo todo as experiências mágicas que você viveu! Obrigado por esta oportunidade de me fazer viajar para dentro de mim mesma!

Eu recomendo a quem quiser ter uma experiência totalmente diferente visitar este lugar, mesmo com todo o lixo que vi, toda a sujeira espalhada pela cidade (quem foi pra Agra pode ter uma idéia mais ou menos de como são estes locais) coloque Vrndavana na sua lista de lugares para conhecer antes de morrer, ou de desencarnar, deixar o corpo físico, trocar a dimensão...

Radhe! Radhe!

Seguem algumas fotos deste lugar tão especial!




Pelas ruas...



Vacas e macacos...




Lindo!



Entrada do mercado.




Cerimônia no Rio Yamuna, céu cor de rosa e meu coração transbordando de alegria!




Meu grande amigo, Maharaj! Despedida do Templo, com a proteção do Guru Srila Bhagavata Bhusana; para me acompanhar no retorno à Coimbatore!


19 de ago. de 2011


O quão poderoso é nosso poder de transformação?

O DNA que é formado a partir das células dos nossos pais, desenha a nossa forma mais primitiva.

Durante o desenvolvimento do feto, toda a carga genética vai sendo impressa nas características físicas e também emocionais da criança. Ao nascer temos a ideia de que a vida está apenas se iniciando, tudo é novo!

Mas hoje já sabemos que não é bem assim. Além das informações genéticas trazidas pelos cromossomos dos progenitores, também somos formados pela influência de nossos ancestrais e de vidas anteriores.

O Ayurveda diz que somos o resultado de todos os hábitos praticados por gerações e gerações. Nossa saúde e constituição é o produto de tudo aquilo que foi feito, digerido e vivenciado por varias vidas anteriores. Ao olhar o corpo de alguém, você esta olhando para o passado! Ok, você pode pensar: “Nossa! Isso é injusto; afinal eu não tenho culpa se meus familiares tiveram maus hábitos alimentares durante a passagem deles aqui na terra! Ou mesmo se em vidas anteriores eu fui uma pessoa má, porque eu tenho que pagar isso agora?

Não quero entrar na discussão espírita, ou religiosa, isso já é muito falado e também devidamente discutido por quem realmente entende do assunto. A minha ideia é apresentar o que podemos fazer para nos libertar desta roda de encarnações (Samsara em sânscrito) e não sofrer tanto com todas as influências que estão acima da nossa vontade.

O primeiro passo é procurar um astrólogo (o Ayurveda esta associado com a astrologia védica) que vai apresentar todo o panorama do céu no dia do seu nascimento. Além disso você terá como visualizar todas as influências que regem seus signos e quais os planetas exercem mais força ou tiram a sua força. Com isso já dá para ter uma ideia do nosso Karma, que é o assunto principal deste artigo.

Trazendo novamente a referencia do Ayurveda, o primeiro sloka (versos) do importante compêndio Astanga Hrdayam, diz o seguinte: Obeisances to Apoorna Vaidya (saudações ao raro, único, físico); who has destroyed, without any residue, all the diseases like raga (aquele que destruiu, sem resíduos, todas as doenças como raga_paixão ou desejo). Na sequência ele apresenta mais alguns significados ou componentes de raga como: a ganância, raiva, arrogância, inveja, medo e outras emoções ruins.

E descreve também dois tipo de Karma: Punya e Papa, o bom e o mal Karma respectivamente.

O bom Karma inclui o Dharma (virtudes) que são as ações positivas e os bons pensamentos. Estando mais perto do bom Dharma, podemos também mudar ou atenuar a força do nosso Karma. É por isso que o tratamento para a cura de uma doença não deve levar em consideração apenas a parte física do indiviuo, ou focar apenas nos sintomas externos da doença; e sim, qual o seu Karma e como ele esta agindo; qual o seu comportamento e padrão mental (gunas). Esta é a grande diferença entre o Ayurveda e a medicina tradicional.

Mais um motivo para se aproximar de técnicas como o Yoga e a meditação; que vão lhe auxiliar no processo do auto-conhecimento. As técnicas são como guias, que conduzem a uma jornada interna. Nos ajudam a perceber os padrões viciados do nosso comportamento. Como eu sempre digo, você pode fazer um belo tratamento ayurvédico, ficar bem “limpinho” mas se você não mantiver uma prática espiritual adequada e disciplinada, tudo que está na raiz do seu Karma uma hora ou outra virá a tona, e você vai esquecer de tudo que aprendeu e voltar aos velhos hábitos, tanto físicos quanto mentais!

Este grande físico citado no sloka, é Dhanwantarie, aquele que tem o poder de remover os maus Karmas e purificar o corpo. O veiculo para esta purificação, ou seja, o caminho para entrar em conexão com Ele e remover esta tendência, é através dos mantras! A vocalização regular dos mantras nos aproxima do divino. Cria um ambiente interno de paz e de silêncio, todo mundo pode se beneficiar: não tem preço, não precisa pegar o carro nem pagar estacionamento! De tão simples a gente chega até a duvidar se ele é realmente efetivo! Mas só quem o pratica pode ter ideia do poder de transformação dos mantras.

Se você não esta habituado ao sânscrito ou não conhece nenhum mantra, simplismente vocalize o mantra OM. Sente-se numa posição confortável e mentalmente repita o mantra, uma vez na inspiração e outra na exalação. Procure estabelecer uma prática diária, vocalizando sempre o mesmo número de vezes sem interrupções, de manhã e a noite. Num segundo momento, com a ajuda de um profissional da astrologia, é possível fazer os mantras de cada planeta, ajudando a atenuar ou fortalecendo os efeitos dos mesmos. Aos terapeutas de Ayurveda ou mesmo quem está se submentendo a qualquer tratamento, o mais indicado é fazer o mantra à Lord Dhanwantarie.

Mangalam! Rezar para Deus, pedir proteção contra todos os bloqueios!

Então, que possamos expandir nossa consciência e ver o quão importante são estas práticas. Procure estar sempre próximo de pessoas boas, nutrir-se com alimentos frescos, não cultivar a inveja, a arrogância, o medo e a raiva. Afastando-se dos pensamentos negativos, drogas, e ambientes com baixa vibração.

Cito uma frase que recentemente ouvi e foi muito esclarecedora:
“Se você não acredita em Deus, a única certeza que você  tem é a da morte. A escolha é sua, se quiser ficar perto de Deus ou mais perto da morte!”

Namaskar


4 de ago. de 2011

A mulher na Índia, é feliz?

Dando sequência as minhas análises iniciadas pelo facebook, sobre as profundas e interessantes conversas sobre sexualidade com minha professora de sânscrito, achei bacana escrever e colocar em pauta um pouco mais sobre este "choque cultural" que estou vivenciando por aqui! Agradeço ao meu amigo João Luís pela sugestão, e todos aqueles que me acompanham por esta vida tão maluca!

Quando falamos em cultura e hábitos de vida, já temos uma ideia pré-estabelecida de como os povos se relacionam com os mais diferentes aspectos da vida. Quando falamos de Oriente, e no caso Índia, a imagem que nos vem a cabeça é de uma sociedade extremamente reguladora, onde a mulher é vista apenas como um ser a serviço do homem e da casa. Sem direitos, mas cheia de deveres. Fica realmente difícil de imaginar se estas mulheres são realmente felizes.

A elas não é dado o direito de escolher o marido, no caso dos casamentos arranjados (que ainda são em maioria por aqui, principalmente no Sul que é uma região mais conservadora) quem escolhe o pretendente é a família, de acordo com os valores e qualidades que eles acham importante que o futuro noivo deva ter.

E o casamento é visto por muitas mulheres como uma meta a ser seguida. Tenho lido diversas publicações regionais; revistas que cumprem o mesmo papel da nossa conhecida Revista Nova, que fala mais abertamente sobre sexualidade e assuntos do universo feminino, e estas revistas valorizam muito a união matrimonial. Existem seções dedicas as leitores onde histórias de amor, de heroísmo dos seus homens são contadas as outras mulheres, que sonham e almejam pelo grande dia do casamento.

Elas estudam, são preparadas pela família para se tornarem mulheres inteligentes e interessantes. Ai, chega um dado momento em que elas desistem da carreira, muitas vezes extremamente bem sucedidas, e partem para este novo desafio em suas vidas. Felizmente hoje, existem algumas famílias que aceitam os "Love Marriages" onde a menina tem um namorado e futuramente se casa com ele; ou mesmo tem a opção de adiarem seus planos para dedicar mais tempo as suas carreiras. Mas ainda são em minoria por aqui!

No geral, a partir do momento em que o casamento acontece, uma nova etapa se inicia. A construção da família. Esta etapa é também vista de uma maneira bem diferente do que estamos acostumados a ver. Hoje em dia, a mulher busca se equiparar com os homens, tendo as mesmas oportunidades profissionais, os mesmos salários, enfim. Aqui, a base da casa é homem, ele é a coluna estrutural da famila. O responsável por manter a honra e o nome da familia perante a sociedade.

Fiquei muito impressionada, quando dias atrás estava lendo no jornal uma história sobre uma família aqui de Coimbatore, que havia desaparecido. Dias depois eles encontram na casa um bilhete escrito pelo pai, onde ele explicava que estava com muita vergonha pois ele havia feito muitas dividas e não tinha dinheiro para pagar. Pessoas estavam o cobrando pelo pagamento! Por não conseguir aguentar mais esta situação, ele fugiu com toda a familia para um outro local onde ele iria tirar a sua vida, da esposa e dos dois filhos pequenos, pois com tanta desonra era impossível continuar vivendo. Como ele iria encarar seus amigos e seus familiares?

Isso é algo comum por aqui, segundo meus professores, a cada ano mais de 30 casos como este são noticiados!

Mas, fazendo um link com o tema principal do texto, será que a mulher aqui é feliz?

Eu diria que sim, pois tudo é baseado na familia! E não tem amor maior no mundo do que o amor que sentimos pelos filhos e pelo homem que passa a vida toda procurando trazer o oferecer o que há de melhor no mundo para a sua esposa. A mulher, diferentemente do que pensamos, é vista como uma Deusa, a responsável por manter a energia do lar. E isso não é menosprezar ninguém não! Aqui, elas dizem: primeiro o casamento, e depois o amor! Ou seja, o amor vai sendo construído aos poucos, a cada dia! As familias são extremamente unidas! As mães são muito, mas muito carinhosas e afetivas com seus filhos (eles amam bebês). E para tudo existe um ritual, uma cerimonia; na minha opinião estes rituais são o que sacralizam a cultura. Quando fazemos um ritual, algo esta sendo marcado! E isso é eterno.

Outro ponto interessante é sobre o divórcio. Aqui a mulher tem total direito de se divorciar se ela comprovar que o marido a trata mal, com violência ou é adepto do uso de álcool. Sim existem delegacias especializadas nos direitos da mulher! Um dia, fui visitar a casa de familia e uma grande confusão estava acontecendo, era gente gritando pra todo lado! Uma mulher, que morava na cercania, havia se casado a alguns dias, e o marido resolveu sair e encher a cara. Resultado, no dia seguinte ela foi à polícia e havia pedido o divórcio! Desonra, sim, mas para o pudim de cachaça que trocou a mulher pela boêmia!

Continuando: O sexo também não é o mais importante, muitas vezes ele é visto apenas como um meio para a reprodução, para ter filhos. Perdas e ganhos não é mesmo? Afinal, se não passássemos tanto tempo da nossa vida preocupados com o prazer sensorial, com os prazeres da carne, sobraria muito mais tempo para outras coisas não é? A união entre homem e mulher é algo além do carnal, é união de almas. A gente não vê por aqui casais de mãos dadas, demonstrando afeto em lugares públicos; isso é algo reservado somente para os momentos de intimidade, e a gente vê casais tão afetivos, que adoram valorizar o sexo e a grande química que rola, mas no fundo eles não tem a mínima intimidade! Não são capazes de conversar e se entender!

Então amigos, sem sombra de dúvida eu digo que a mulher é feliz aqui sim! De uma maneira diferente, não aos nossos olhos ocidentais! Afinal, em que religião existe, tantas Deusas quanto no hinduísmo? Tantas mulheres adoradas e abençoadas.

Pobre Maria Madalena, tão apedrejada e criticada pelos costumes cristãos...

É isso aí, temos muito, mas muito o que aprender com os indianos....Namaste! :)



30 de jul. de 2011



Bhakti Yoga


Quero compartilhar com vocês um pouco do que estou aprendendo e vivenciando sobre a cultura e os rituais hinduístas. Mesmo antes de visitar pela primeira vez a Índia (em Abril de 2009), sempre me identifiquei e procurei entender o significado dos rituais e de que forma eu poderia incluir este tão sagrado momento na minha vida, e qual era o sentido de tudo isso! O yoga me aproximou desta cultura e foram os meus primeiros passos dentro desta nova concepção de corpo e mente. Entendi que era preciso alimentar e nutrir estes dois mundos (Yoga = união).

Não posso dizer que finalmente algo aconteceu, mas obtive algumas graças.


Embora eu tenha criado este blog para contar todas as minhas experiências, não vou dizer exatamente tudo que aconteceu, pois faz parte de um universo muito particular. Mas o que eu posso falar é que finalmente eu encontrei a estrada certa, uma direção. Encontrei um caminho que me levou  à consciência de Krishna (por favor aguardem mais textos específicos sobre este assunto) mas o papo aqui é sobre a conexão com o mais elevado grau de devoção. E tudo esta acontecendo de uma maneira muito natural e sincrônica.


Tudo começou, há mais ou menos duas semanas atrás quando recebemos um novo morador aqui no apartamento. Ele é monge Hare Krishna (bramacharia) esta fazendo diversos tratamentos para um problema bem grave nas articulações, o hospital está lotado de pacientes, então tiveram que alojar ele aqui no quarto que estava vago. O problema dele é muito sério, ele tem artrite reumatóide num estado muito avançado; os calcanhares dele estão tão inchados que ele não consegue mais se locomover. Quem o trouxe para cá foi uma família residente da Látvia (norte da europa) que são membros e coordenadores do Iskcon templo de lá. A mãe foi a primeira a chegar, pois ela é médica ayurvedica e também estava fazendo algumas aulas no AVP (minha escola).


Quando tivemos a oportunidade de conversar, ficamos praticamente 3 horas sem nem beber água, de tanto assunto, tanta troca que aconteceu. Sempre tive curiosidade em saber e entender mais sobre os Hare Krishnas. Me lembrei de todas as vezes que estava lá, vocalizando o mantra sem entender direito o sentido de tudo isso. Ela me levou no Iskcon templo aqui de Coimbatore, e carinhosamente me explicou exatamente como devo me portar e o significado de cada imagem, cada pooja, cada mantra.  E me indicou algumas leituras que me ajudariam a entender melhor como tudo funciona. A base são os Vedas (leitura e interpretação dos Upanishads) entre outras tantas referências. O principal livro, logicamente é o Bhagavad-Gita.

Ao planejar esta minha atual viagem à Índia, mais uma vez eu pedi que uma luz me fosse enviada, que aqui eu pudesse, no berço desta civilização, entender o que eu estava procurando. Não queria respostas rápidas, queria sentir, apenas isso! Além do racional, além do impulso que tantas vezes me levou para tantos lugares diferentes. Queria deixar acontecer, não procurei por este encontro, sabia que na hora certa ele chegaria. E que, principalmente que eu estaria pronta para ele! Há poucos dias terminei de compor o meu altar, selecionei a imagem que eu quero me identificar e oferecer meus mantras e orações. Foi um momento muito especial, onde tudo ficou claro, finalmente fez sentido! Hare Krishna! Prazer em revê-lo!


Vou explicar um pouco como tudo funciona, para quem quiser ter o seu também:


No meu altar (foto acima) está a imagem de Krishna, com uma coroa de flores de jasmim  (que deixam um delicioso perfume no ar); e duas lâmpadas. As lâmpadas são sempre acendidas em dois momentos do dia. Momentos estes em que nos colocamos frente ao altar para entoar os mantras e praticar a meditação. O primeiro se dá antes do sol nascer, acendemos a lâmpada para trazer mais luz ao novo dia; o segundo momento é ao entardecer, quando o sol já se pôs, acendemos novamente a lâmpada para manter a luz dentro de nossa casa (muitas cidades aqui da Índia não possuem luz elétrica). Para acende-la usamos óleo de gergelim ou ghee. Com um pedaço de algodão, acende a pontinha e enquanto o óleo estiver na lâmpada, haverá luz. Os pós (vermelho e amarelo) são para fazer marcas na testa e no pescoço: na testa é proteção para o devoto, e no pescoço para a família do devoto. Se a mulher é casada, ela faz uma marca em vermelho no topo da cabeça para pedir proteção ao marido.

Podemos colocar ao redor da lâmpada, algumas flores, que enquanto vocalizamos os mantras vão sendo jogadas no pratinho onde fica a lâmpada. Qualquer oferenda é bem vinda! Colares, pulseiras, frutas, incensos..tudo para agradar ao seu Deus. Podemos também colocar mais imagens, estátuas, tudo aquilo que de alguma forma faça sentindo de estar ali presente. Até mesmo fotos de pessoas queridas ou de nossos ancestrais! Enfim, o que vale mesmo é a atidude de respeito e austeridade (rigor da disciplina).

Por fim, é procurar sempre tomar um banho ou lavar o corpo antes de fazer este ritual. Existem uma série de rotinas descritas nos textos clássicos de como fazer este pooja (oferenda), mas aqui estou passando uma idéia mais básica,  algo simples que pode ser feito em casa! Ah, uma última coisa, o altar deve estar num lugar alto (no meu quarto não foi possível, mas o que vale é improvisar) nunca colocar as imagens no chão! E manter tudo sempre limpo e perfumado! Sentar-se com os pés cobertos e nunca colocar os mesmos na direção das imagens!


Em resumo, o que eu desejo a vocês é que possamos de alguma forma nos conectar com uma energia superior, a energia do divino. Dando menos valor aos prazeres que só satisfazem os sentidos. Que busquemos uma vida plena e feliz! Que busquemos esta constante de felicidade!


"Que possamos ser únicos e divinos na nossa essência"


Namaste!
(o meu Deus interior, saúda o Deus que habita em ti).


14 de jul. de 2011



Especiarias para ajudar os Kaphas neste inverno.

Para começo de conversa, vamos entender rapidamente o que são dos Doshas, princípios biológicos fundamentais do Ayurveda.

Como falei anteriormente, tudo que existe no universo é composto pelos 5 elementos (Pancha Mahabhutas) que são: espaço (Akasha), ar (Vayu), fogo (Agni), água (Jala) e terra (Prithvi). A matéria é composta da combinação destes elementos, em diferentes proporções. Podemos perceber substâncias mais densas e mais leves.

Um exemplo fácil para entender são as frutas: a banana tem mais quantidade do elemento terra que a uva, que tem em sua composição mais do elemento água. Alimentos feitos a partir de farinha, como pães, massas e bolos, são mais pesados que os legumes e vegetais, que em sua maioria contem mais água e ar na sua composição. Além disso, outra caracteristica muito importante das substancias é a sua potencia;  transmitir calor ou frio quando em interação com o nosso corpo.

Tudo no Ayurveda é baseado neste balanço entre: frio e quente, sol (surya) e lua (chandra), noite e dia.  É um conceito bem lógico, mas que rege todos os princípios terapêuticos desta prática.

Os doshas são as forças funcionais do corpo, e são responsáveis por todos os processos que mantém a vida. A palavra dosha tem o significado de impureza, pois quando existe um desequilibrio destas forças, o resultado são o aparecimento das doenças. Existem três doshas: Vata, Pitta e Kapha.

Vata é formado por ar e espaço, Pitta por fogo e água e Kapha por água e terra. Estes três doshas quando em equilíbrio trazem saúde ao corpo. Mas vamos nos concentrar no dosha Kapha quando está em desequilibrio!

Por ser formado por água e terra, já conseguimos entender que suas qualidades são: pesado (guru), estático(sthira), macio (slakshna), olesoso(snigha), denso (sandra) e frio (seeta); caracteristicas da água e da terra. Transfira isso para o corpo, e você conseguirá entender estas propriedades associadas com a nossa fisiologia. Precisamos de terra para o crescimento do nosso corpo e para nos mantermos eretos. Estrutura, densidade. Precisamos de água para nutrir os tecidos e manter as articulações lubrificadas; óleo, maciez! Enfim, isto representa Kapha no corpo, e cada individuo terá em sua composição corporal diferentes quantidades deste dosha, mas todos nós temos ele presente. O sitio, ou seja, a casa onde mora este elemento no corpo é a parte alta (peito e cabeça).

Quando em desequilíbrio, ou seja, quando temos um aumento deste elemento no corpo (Vridhi), todas estas caracteristicas vão estar agravadas. Sentiremos sensação de peso e dores de cabeça, fadiga, aumento de muco, nariz escorrendo, desconforto na garganta, etc. Os sintomas, inicialmente são sempre sentidos no seu próprio sitio!

Como eu disse Kapha é frio! E nas temperaturas frias ele naturalmente se agrava. Resultando nos famosos resfriados. Vou escrever aqui algumas dicas que o Ayurveda nos trás para evitar que este dosha se acumule ainda mais, e também o que podemos usar para aliviar estes sintomas:

- Durante esta estação, evite comer comidas muito pesadas, gordurosas e de difícil digestão, isso só vai aumentar a sensação de peso no corpo; evite refeições frias (saladas) ou alimentos crus.

- Respeite os horários e se alimente entre 6:00 e 18:00hs. Evite comer muito a noite;


- Não durma durante o dia;

- Prefira os sabores punjentes (especiarias picantes), amargos e comidas quentes. Evite doces, alimentos muito salgados e azedos;

- Abuse de especiarias como: cardamomo, cumimho, cúrcuma, asafétida, canela, gengibre, pimenta preta e semente de mostarda; elas podem ser usadas nos chás e no preparo das refeições;

- O mel pode ser usado, pois ele ajuda a reduzir Kapha. Embora de sabor doce, dentro do corpo ele tem uma outra potencia (Vipaka; veremos isso mais adiante) que ajuda a secar o Kapha e reduzir o muco. Mas fique muito atento com a qualidade do mel! Deve ser 100% puro, sem adição de melados ou açucares, pois isto pode causar aumento de kapha, constipação intestinal e produção de toxinas! Um verdadeiro veneno!

- Limão: Esta é uma boa polêmica! Nossa avó dizia que limão é bom para curar o resfriado pois contém vitamina C. Ok, mas na visão do Ayurveda não é bem assim! Limão é azedo (Amla),o que aumenta o dosha Kapha e também Pitta (fogo e água). Ele tem a propriedade de ser adstringente, e limpar o trato respiratório e remover o muco, ok! Mas isso só faz aumentar a chance de infecções e produzir mais muco, ou seja, não ajuda em nada no resfriado! Uma boa fonte de vitamina C é o romã, use a fruta fresca ou sucos.

Anote aí uma receitinha ayurvédica para os Kaphas aliviarem os sintomas do resfriado e aquela dorzinha chata na garganta:

Ingredientes:

600ml de água
1 col chá de pimenta preta em pó
3 col de sopa de açucar mascavo
1/2 raíz de genbibre seco
1 col de chá de cominho (seco ou fresco)

Pode acrescentar um punhado de folhas de Tulassi (no brasil é conhecido como manjerição de folha larga, remédio do vaqueiro) amasse as folhas e coloca para ferver junto com os outros ingredientes, se não tiver as folhas tudo bem!

Para aqueles que tem bastante Kapha em sua constituição podem colocar uma colher de sopa de café para ferver junto, que ajuda a melhorar o sabor e também reduz Kapha, mas tome somente 1x ao dia com o café!

Deixar ferver por 10 a 15 minutos e filtre. Tome 3x ao dia!

Um grande beijo a todos!
Namaste!

13 de jul. de 2011


Kati Basthi: Tratamentos localizados para dor.

Um segundo grupo de tratamentos que quero apresentar para vocês, são os tratamentos localizados. São aplicações de óleo medicado em uma articulação que esta sofrendo por falta de lubrificação. Quando sentimos  dor ou dificuldade de movimentar uma articulação, uma causa muito comum é a secura do liquido responsável por lubrificar e manter os tecidos conectivos saudáveis e em bom funcionamento.

Segundo o Ayurveda, estes problemas estão relacionados com o elemento AR, que por diversas razões está aumentado dentro do corpo, seja por consequencia de alguma doença, falta ou excesso de uso de uma articulação, ou pelo próprio envelhecimento. Outra causa também apresentada, são os excessos de toxinas (AMA) que impedem  fluxo deste AR, bloqueando os canais por onde ele deveria circular. Ao ser impedido de manter o seu fluxo normal, o ar se acumula e entra em contato com um tecido, causando secura e falta de lubrificação. Uma grande parte dos tratamentos utilizados são para promover a oleação do corpo, seja internamente ou externamente; para devolver a elasticidade e nutrição destes tecidos. Em conjunto, se faz uso dos tratamentos de purificação, que removem as toxinas limpando e desobstruindo os canais de ar  (prana ou energia vital).

Devemos pensar no nosso corpo como uma máquina, que rotineiramente precisa de reparos! Somos feitos de engrenagens e sistemas de encaixe muito delicados, por isso precisamos estar atento as suas necessidades! 

Vamos ao tramento!
A foto acima mostra um tratamento especifico para dores lombares, o procedimento é feito da seguinte maneira:

Um mistura de farinha integral e água para fazer a massa;
Moldar em formato circular e aplicar na região a ser tratatada (pode ser qualquer articulação);
Aquecer o óleo medicado com propriedades para pacificar o dosha Vata (responsável pelo aumento de ar no corpo), e aos poucos ir preenchendo o espaço com óleo.
Manter o óleo sempre aquecido e trocar quando necessário.

Manter por no mínimo 30 a 45 minutos, fazer por no mínimo 3 vezes, e acompanhar a evolução.

Depois de retirar a massa, fazer uma massagem local.

Caso o procedimento seja feito com a massagem no corpo todo, primeiro faz a massagem e depois o Basti.

Pode ser feito com óleo de gergelim, ou algum outro óleo com propriedades nutritivas. Os óleos mais utilizados no Ayurveda são:

Sahacharadi Thailam: Indicado para problemas do dosha Vata e dores em geral.
Karpooradi Thailam (Cânfora): Alivio rápido da dor, bom para casos agudos.
Balaswagandhi Thailam: Para fraqueza e falta de nutrição ou contraturas musculares.

Se o paciente estiver muito fraco pode usar Sahacharadi + Karpooradi juntos!

Namaste!

Receita Buttermilk

500ml de leite integral
250ml de água

Ferver, e quando estiver frio colocar o suco de um limão
Deixe descansar por uma noite e no dia seguinte use um misturador (ou mixer para os mais descolados) e retire toda a gordura que se formar nas bordas.

Está pronto uma saudável e deliciosa bebida! Ajuda a esfriar o corpo no calor e pode ser usado em diversas receitas, pois confere mais leveza a pães e massas. É mais fácil de digerir do que o leite comum, possui menos gordura, alto teor de potássio, vitamina B12, Cálcio, Riboflavina, e também uma boa fonte de fósforo!

Namaste!